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Farinha de Abóbora

por Paula, em 17.02.15

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A paisagem do Vale de Alvoco da Serra não era como a conhecemos hoje. Foi apenas a partir do século XIX que a Serra da Estrela viu as suas "saias" ganharem novos contornos. A "revolução" deu-se por conta do milho. 

 

Embora tenha crescido habituada a ver nascer tudo o que se plantava nas terras do Aguincho, a verdade é que nem sempre foi assim. Por um lado, as terras eram efectivamente pouco férteis; por outro, havia escassez de variedade de produtos, pelo que cada região produzia o que mais dava ou tinha para cultivar. No caso das aldeias serranas, predominava o centeio e o trigo que se adaptavam a solos mais pobres. Todavia, as sementes destes cereais rendiam pouco.

 

O milho surgiu em Portugal por volta do século XVI, mas só se estendeu às Beiras nos séculos XVIII e XIX. Sendo um cereal de bom rendimento, depressa tomou o lugar principal de cultivo. Como necessitava de bastante água, era necessário adaptar as terras íngremes ao seu cultivo e à rega. Surgem assim as levadas que conduziam as águas das ribeiras para os socalcos feitos pelos agricultores. Com esta revolução, surge também a figura do zelador das levadas, que era nomeado pelas gentes da aldeia e pago pela paróquia, que determinava as horas a que cada um podia regar. E quem fosse nomeado para a função, não podia recusar. Este sistema de uso das águas das levadas, ainda está em vigor nestas aldeias.

 

A transumância era habitual nas terras serranas, sendo que o gado era constituído essencialmente por cabras e ovelhas. Com a introdução do milho, a forragem começa a ser utilizada no Inverno para alimentar os animais, dando lugar ao esmorecimento daquela actividade, que tanto rendimento trouxe ao Vale de Alvoco, e ao aproveitamento do estrume para adubar as terras. No século XX, ainda era este o quadro da agricultura serrana. Muitas foram as viagens de Lisboa para o Aguincho em que eu e o meu pai levávamos carregos de estrume retirado das capoeiras das galinhas e dos coelhos para adubar a terra escura dos socalcos que iriam receber as batatas.

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A farinha de abóbora é um prato que se cozinhava em casa dos meus avós paternos que viviam no Aguincho. Era feito essencialmente para comer ao pequeno-almoço, mas também era servido como sobremesa. Para o efeito, adicionava-se mel, pois não havia açúcar à disposição.

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Os naperons são um produto artesanal da Botão de Pérola.

 

FARINHA DE ABÓBORA DO AGUINCHO

(Receita da minha mãe)

 

INGREDIENTES:

400 g de abóbora cozida e escorrida

3 c. de sopa de farinha de milho

3 c. de sopa de mel de rosmaninho ou de açúcar amarelo

150 ml de leite

1 gema de ovo

1 pau de canela

1 raspa de limão

 

PREPARAÇÃO:

Desfazer a abóbora, já cozida num pouco de água temperada com sal e escorrida, com a ajuda de um garfo (para uma apresentação mais rústica) ou com a ajuda da varinha mágica.

 

Num tacho, colocar o leite e juntar a gema de ovo. Mexer bem até esta se desfazer. Adicionar o açúcar e a farinha peneirada. Mexer bem com a ajuda de uma vara de arames, para não criar grumos.

 

De seguida, juntar a abóbora, o pau de canela e a raspa de limão. Colocar o tacho  ao lume. Envolver bem o preparado. Ir mexendo e deixar ferver até que ganhe a consistência desejada (tipo leite-creme).

 

Colocar em taças e decorar a gosto com canela ou frutas da época.

 

 

A receita original não leva canela nem limão. Esta é a versão da minha mãe para a enriquecer um pouco mais.

 

Bom apetite!

Que bos faga bun purbeito!

 

 

Nota: Os naperons são um produto artesanal da Botão de Pérola.

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«Todas a vezes que a visitei (a Beira), olhei e perscrutei, a ver se conseguia entendê-la, andei sempre à roda, à roda, e sempre à roda da mesma força polarizadora: - a Estrela. (...) Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Há energia eléctrica na Beira? Gera-se na Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha nas suas raízes no seu largo materno seio. Ela comanda, bafeja, castiga e redime. Gelada e carrancuda, cresta o que nasce sem a sua bênção; quente e desanuviada, a vida à sua volta abrolha e floresce. O Marão separa dois mundos - o minhoto e o transmontano. O Caldeirão, no pólo oposto de Portugal, imita-o como pode. Mas a Estrela não divide: concentra.»

 

Miguel Torga

 

Fotografias e montagem de Ricardo Barata - Aguincho

 

No Aguincho, aldeia protegida pelo Vale de Alvoco da Serra, correm as águas que nascem na Lagoa Comprida e se lançam a desenhar carreiros amparados por rebolas e ervas que se vestem de cor para a saudar à sua passagem. No moinho, os rodízios lançam-se na lenta roda que transforma os cereais em pão, ao sabor da sua corrente. O forno espera, quente, os pães e os esquecidos que encherão as arcas. Os pássaros, enamoram-se da corrente cristalina que revela peixes de tamanhos vários a passear despreocupadamente. O sol, acaricia esta água e a terra que a envolve numa bênção que a Serra reconhece. As gentes, agradecem, humildes, esta comunhão com a natureza.

 

Boas descobertas!

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Poço da Vagem - Pormenor do moinho comunitário

 

Situada em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, bem perto da Torre (em linha recta), na margem direita da Ribeira de Alvoco, fica a aldeia de Aguincho. É a mais distante e menos populosa aldeia da freguesia de Alvoco da Serra, de que dista 8 km, e a que permaneceu quase inacessível por carro até há poucos anos. Esta aldeia, que mais parece um lugar, faz parte da minha história.

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Vista da estrada nacional sobre Alvoco da Serra com a Serra da Estrela a amparar a vila

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Pormenor do restaurante da estânciade neve da Serra da Estrela

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Pormenor do muro junto ao restaurante da estância de neve da Serra da Estrela

 

Estima-se que a origem do povoamento de Alvoco da Serra poderá recuar até à Idade do Bronze, devido à descoberta de pinturas rupestres nas encostas das ribeiras de Alvôco e do Piódão. Quanto ao Aguincho, sabe-se, desde 1884, que os Romanos passaram por ali, porque se descobriu no sítio da Barroca do Galego um tesouro de denários republicanos.

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Pormenor do caminho no Aguincho

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Desconhece-se a sua toponímia, mas sabe-se que até ao século XVIII apenas havia referência nos registos de baptizados ao Pavão, lugar que fica nas imediações do Aguincho. Todavia, a capela, inicialmente dedicada a S. Domingos - talvez pelo facto de o Barão de S. Domingos e Alvito ali ter construído uma quinta de recreio repleta de estátuas de bronze que a população carinhosamente chamava de «santos negros» –, foi construída em 1726, tendo sido reconstruída já em pleno século XX. Hoje, é dedicada à Nossa Senhora da Agonia, devido, dizem, a promessa feita por Mário Luís Freire à Santa. O aguinchense prometera fazer uma festa em honra da Nossa Senhora da Agonia se conseguisse ficar curado de mal que lhe havia chegado. Tendo recuperado, tratou de cumprir o prometido. Em consequência, a festa da aldeia celebrada no primeiro Domingo de Setembro de cada ano é agora dedicada à referida Santa.

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Poço da Vagem - Aguincho

 

O Aguincho pouco mais tem para oferecer aos seus visitantes do que a sua fabulosa paisagem, marcada por socalcos feitos pelo homem para tornar a terra mais produtiva; a calma da água a correr na ribeira; o canto dos pássaros; a monumentalidade da água a cair na «Broca»; banhos refrescantes em águas límpidas e tranquilas; as trutas que habitam o viveiro e a serenidade regeneradora de dias tranquilos. Em rigor, o Aguincho oferece saúde e bem-estar.

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 Pormenor de casa

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Capela da Nossa Senhora da Agonia / Caminho para o Poço da Ponte / Diospireiro - Aguincho

 

Quem quiser passar uns dias nesta pérola da Serra da Estrela pode ficar no «Refúgio da Estrela» ou na «Casa do Galvão». Ambos oferecem a garantia de dias tranquilos marcados pela rusticidade que se deseja do lugar.

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Pormenores do Refúgio da Estrela - Turismo Rural - Aguincho

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Fonte junto ao Refúgio da Estrela a da Associação do Aguincho

 

Dali, pode partir à aventura e optar por vários percursos pedestres ou utilizando o carro. No Inverno, o ponto alto é subir à Serra da Estrela para sentir a neve. Passando por Loriga, lugar também ele de visita obrigatória com a sua história romana, encontra, a cerca de 30 minutos, a estância de neve. No regresso, pode passar pelo Museu do Pão, em Seia, e pelo Vale do Rossim. Seguindo noutra direcção, poderá também passar por Vide, e subir até à aldeia mais característica de Portugal: o Piódão. Aconselha-se ainda uma visita à aldeia de Cabeça, que este ano foi uma das aldeias Natal, e à sede da freguesia, Alvoco da Serra. O percurso mais simples e o favorito de muitos como eu, é ir a pé até à aldeia de Frádigas, cuja história está também de alguma forma ligada ao Aguincho, e tomar um café na esplanada situada na varanda da Associação Recreativa ou simplesmente deixar-se ficar pelo largo a conversar com os locais ou a ler um livro.

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Cachorro Serra da Estrela - Aguincho

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Pormenor da Ribeira de Alvoco junto ao Poço da Ponte - Aguincho

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Fonte da Mina - Aguincho

 

No que concerne à gastronomia, existem dois restaurantes situados a poucos quilómetros da aldeia. O restaurante «Pedras Lavradas», situado, como o próprio nome indica nas Pedras Lavradas, que fica entre Loriga e Unhais da Serra, oferece uma vista ampla sobre o vale e a Serra, bem como pratos tradicionais portugueses a preços muito acessíveis. Convém reservar, pois ao fim-de-semana costuma estar cheio. Na Barriosa, encontra-se o «Guarda-Rios», com a sua particular localização. Situado junto à ribeira e inserido na rocha, este restaurante oferece uma experiência única, porque pode tomar o seu café, no Verão, enquanto desfruta da água da ribeira. A cozinha é igualmente tradicional mas com uma apresentação mais cuidada. Um e outro merecem uma visita.

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Vista do caminho para o Poço da Vagem - Aguincho

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Vista da varanda da Capela da Nossa Senhora da Agonia - Aguincho

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Serra da Estrela vista da estrada do Aguincho em direcção a Vasco Esteves de Baixo 

 

Boas descobertas!

 

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