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Vale de Alvôco da Serra, Parque Natural da Serra da Estrela
Canta a Mariza que as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade. Há gente que fica na história, na história da gente e outras de quem nem o nome lembramos ouvir. São emoções que dão vida à saudade que trago (...). Há dias que marcam a alma e a vida da gente.
A tia Palmira, mulher simples, criada e vivida nas faldas da Serra da Estrela, era uma figura singular. Os seus modos alegres cativavam os familiares e amigos que muitas vezes se desviavam do seu caminho para a ir visitar. À chegada, encontrávamo-la sempre descalça, fosse verão ou inverno. Recebia-nos sempre de sorriso largo e já desdentado, que o dinheiro não chegava para as consultas do dentista, e de brilho intenso no olhar. A alegria de nos ver, aos miúdos da cidade, ficava estampada naquele rosto curtido pelo sol e pelo frio dos dias de lavoura.
- Entrai, pois então! Entrai e sentai-vos à mesa. Comei uma malga de sopa que está a acabar de fazer, pois sim! – dizia-nos de sorriso largo ao mesmo tempo que escancarava a porta da entrada.
- Entrai e aquecei-vos! Andai lá e comei qualquer coisa! – insistia. E logo ordenava ao meu tio que fosse buscar pão fresco à arca de madeira e vinho para ajudar a empurrar o pão e o queijo. Tudo feito por aquelas mãos.
O cheiro a lenha queimada sentia-se antes de chegarmos à porta da casa feita de pedra por fora e de madeira por dentro. Um luxo face à casa da quinta que amanhava. Subíamos as escadas, sentindo a madeira a ranger sob os nossos pés, para logo avistarmos a panela preta de ferro fundido, pesada, presa nas cadeias da lareira, a ser acariciada pela chama do lume. No seu interior, fervilhava uma sopa de feijão encarnado, couve portuguesa e esparguete. Para acompanhar, havia fatias de pão de milho (broa) ou pão de centeio com queijo da serra caseiro.
Na família, a opinião sempre foi unânime: aquela era a melhor sopa que já havíamos comido. E era sempre por ambas que voltávamos. Para o fim, já não havia panela ao lume todos os dias… e eu ficava a olhar para a lareira apagada, sem vida, sentindo o desconforto de toda uma vida dura que agora dava sinais de estar a terminar.
A tia Palmira já faleceu, mas esta imagem dela, descalça e de sorriso largo e franco, há de acompanhar-me sempre, bem como o sabor daquela sopa.
As coisas mudam. Há vidas que nos tocam e que se apagam, mas que jamais nos saem da memória emotiva, fotográfica, olfativa e gustativa. Fica a saudade, mesmo que dela não falemos. Tentamos resgatar sabores e continuar velhos legados, mas aquele sabor não voltamos a provar e as emoções já não serão as mesmas. Perde-se o encanto.
Ingredientes:
300g de feijão “pantufas” (feijão encarnado de vagem arredondada)
4 batatas
1 cebola
1 couve portuguesa
200 g de esparguete
Sal q.b.
Azeite q.b.
Àgua q.b.
Preparação:
Numa panela de ferro fundido, coloque o feijão, duas batatas e a cebola. Cubra com água e tempere com sal e azeite *, embora, em rigor este deva ser colocado apenas no fim, já que é uma gordura que não deve ser cozinhada.
Depois de os legumes estarem cozidos, reduza-os a puré. A tia Palmira utilizava uma grande colher de pau e um garfo para fazer o puré o que acabava por deixar alguns feijões inteiros. Como utilizei a trituradora, deixei uma concha de sopa de feijões inteiros.
Junte a couve cortada de modo mais grosseiro do que para o caldo verde, duas batatas cortadas em quartos *, adicione mais água quente, a gosto, consoante queira a consistência do caldo e deite mais um pouco de azeite.
Quando a couve estiver praticamente cozida, junte o esparguete e retifique os temperos, se necessário.
Sirva bem quente numa malga e acompanhe com uma fatia de broa ou de pão de centeio com queijo.
O segredo desta sopa não estava apenas nas mãos de quem a fazia, no lume da lareira, nos alimentos que provinham da terra que aquelas mãos cuidavam, da água que era retirada da fonte cuja origem está no centro da Serra da Estrela e da geada que amaciava as folhas das couves, mas, sobretudo, no tempo de cozedura dos alimentos, aliado à temperatura que não execedia os 70.º ou 80.º. Eram estes factores que definiam o maravilhoso sabor desta sopa porque respeitavam as propriedades dos alimentos, deixando-os revelarem-se. Na província (e naquela altura) o tempo é aliado das pessoas e da comida. Poque ele existe, tudo se torna mais autêntico.
À tia Palmira que nos recebia sempre com um prato fumegante, tão simples e tão reconfortante quanto o seu sorriso.
Bom apetite!

* Nota ao texto: Na fotografia não aparecem as batatas cortadas em quartos porque me esqueci. Acabei por confirmar com a minha prima Lurdes alguns detalhes e acolhi ainda as sugestões de um amigo (A.) relativamente ao azeite, ao tempo e à temperatura que, de facto, marcam a diferença. Bem-haja a ambos! :D