Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O Guarda-Rios

por Paula, em 01.04.15

IMG_8789.JPG

IMG_8792.JPG

IMG_8809.JPG

Inserido em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, na aldeia de Barriosa, o restaurante Guarda-Rios está privilegiadamente localizado no local onde antigamente se situava um lagar de azeite. Por isso, não é de estranhar que as cristalinas águas da Ribeira de Alvoco lhe sirvam de tapete paisagístico. Ao comensal apenas é pedido que desfrute da boa cozinha serrana e da calma que envolve aquele cenário idílico, completado pelas notas musicais da água a cair nas três cascatas que compõem o Poço da Broca da Barriosa.

IMG_8815.JPG

IMG_8818.JPG

O Guarda-Rios é um pássaro lindíssimo, com penas azuladas no dorso, alaranjadas no peito e castanhas na ponta interior da cauda. Mas, em tempos, foi também uma profissão criada no século XIX com o intuito de fiscalizar as correntes da ribeira, no seguimento dos mestres do vale, e a utilização da água, extinta em 1995. composiçao7.jpg

O restaurante é muito agradável. O atendimento é atencioso e sem pretensões. A comida, essa, é tradicionalmente serrana, onde impera o borrego e o cabrito. Estes animais são de criação local, pois são fornecidos por um pastor de Alvoco das Várzeas. Não é, pois, de admirar que a carne seja fabulosa. Pode-se afirmar que a cozinha do Guarda-Rios é uma verdadeira guardiã da gastronomia regional do Vale de Alvoco.

composiçao5.jpg

composiçao6.jpg

No período em que decorre a Mostra de Gastronomia Aromas e Sabores da Montanha, até ao próximo dia 12 de Abril, o Guarda-Rios apresenta-nos o tradicional borrego e o arroz doce. As entradas são compostas por truta e sardinha de escabeche, bola de bacalhau e quiche de legumes e bacalhau. De realçar que a truta é originária do viveiro do Aguincho, que tem a preocupação de utilizar a água da Ribeira de Alvoco - que é muito oxigenada -, o que confere ao peixe uma consistência e cor diferentes das que normalmente se encontram nestes locais de criação.

composiçao3.jpg

page.jpg

O Guarda-Rios tem ainda à venda artigos gourmet originários do Vale de Alvoco. Destacam-se os chocolates tradicionais com aguardente de mel e de medronho que são maravilhosos. As trutas em conserva, são também muito boas. Depois, existe toda uma panóplia de aguardentes típicos daquela zona, como os de zimbro, de mel e baunilha, de medronho, etc. que são feitos nas destilaria do restaurante, situada mesmo em frente do mesmo. Finalmente, os doces: geleia de medronho, marmelada, doce de marmelo, geleia de marmelo - tudo feito com produtos locais. É evidente que não pude sair sem trazer alguns destes artigos comigo.

Composiçao1.jpg

 

composiçao2.jpg

 

composiçao4.jpg

No final, um passeio junto à ribeira permitiu assistir a um espectáculo da natureza: ver uma cobra a agarrar a cauda de uma truta. Dizem que a cobra não larga a cauda da truta até a cansar. 

IMG_9663.JPG

Bom apetite e boas descobertas!

Autoria e outros dados (tags, etc)

755a09762452d6eb5c314d532540d319_L[1].jpg

 

Os pratos mais emblemáticos da região vão estar à mesa dos restaurantes do concelho de Seia, durante o período da Páscoa, em mais uma edição da Mostra de Gastronomia “Aromas e Sabores da Montanha”.

 

A Mostra de Gastronomia decorre de 28 de março a 12 de abril, nos 24 espaços aderentes, e promete surpreender os clientes com pratos típicos e inovadores, de sabores e saberes que refletem os hábitos e tradições da Montanha.

 

De entrada, petisco ou prato principal, confecionado de forma tradicional ou num prato mais sofisticado, serão várias as opções em destaque, que privilegiam, entre outros, o uso do cabrito, borrego, Queijo Serra da Estrela, mel, requeijão, enchidos, o Pão do Sabugueiro e a Broa de Loriga, enquanto produtos locais, mas também outros pratos típicos, onde faltarão sugestões de vinho do Dão, produzido no concelho.

 

Promovida pela ADIRAM – Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede das Aldeias de Montanha, em parceria com os restaurantes e o Município de Seia, a mostra pretende promover o potencial gastronómico do concelho e, assim, impulsionar o setor da restauração, um património gastronómico único, testemunho de gerações passadas, inspirado nos produtos locais e nas necessidades e exigências da vida quotidiana daqueles que aqui vivem.

 

O legado desta valiosa herança de saberes e sabores, no nosso concelho de Seia, é reconhecido como um dos produtos turísticos com maior capacidade de promoção da região, sendo a Mostra de Gastronomia um dos instrumentos para a sua divulgação.

 

RESTAURANTES ADERENTES
Abrigo da Floresta | Abrigo da Montanha | Borges | Cabeço das Fragas | Churrasqueira Serrana | Guarda Rios | Império | Miralva | Mirante da Estrela | Museu do Pão | O Camelo | O Farol | O Favo | O Fim do Mundo | O Forno Margarida I | O Manjar da Serra da Estrela | O Tachinho do Francisco | O Vicente | O Regional da Serra | São Martinho- Quinta do Crestelo | Senhora da Lomba | Espaço Ego

Outros Espaços: Conta Gotas | Senalonga 

 

Fonte: http://www.cm-seia.pt/

 

Boas descobertas!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Farinha de Abóbora

por Paula, em 17.02.15

Rosmaninho_abelha.jpg

A paisagem do Vale de Alvoco da Serra não era como a conhecemos hoje. Foi apenas a partir do século XIX que a Serra da Estrela viu as suas "saias" ganharem novos contornos. A "revolução" deu-se por conta do milho. 

 

Embora tenha crescido habituada a ver nascer tudo o que se plantava nas terras do Aguincho, a verdade é que nem sempre foi assim. Por um lado, as terras eram efectivamente pouco férteis; por outro, havia escassez de variedade de produtos, pelo que cada região produzia o que mais dava ou tinha para cultivar. No caso das aldeias serranas, predominava o centeio e o trigo que se adaptavam a solos mais pobres. Todavia, as sementes destes cereais rendiam pouco.

 

O milho surgiu em Portugal por volta do século XVI, mas só se estendeu às Beiras nos séculos XVIII e XIX. Sendo um cereal de bom rendimento, depressa tomou o lugar principal de cultivo. Como necessitava de bastante água, era necessário adaptar as terras íngremes ao seu cultivo e à rega. Surgem assim as levadas que conduziam as águas das ribeiras para os socalcos feitos pelos agricultores. Com esta revolução, surge também a figura do zelador das levadas, que era nomeado pelas gentes da aldeia e pago pela paróquia, que determinava as horas a que cada um podia regar. E quem fosse nomeado para a função, não podia recusar. Este sistema de uso das águas das levadas, ainda está em vigor nestas aldeias.

 

A transumância era habitual nas terras serranas, sendo que o gado era constituído essencialmente por cabras e ovelhas. Com a introdução do milho, a forragem começa a ser utilizada no Inverno para alimentar os animais, dando lugar ao esmorecimento daquela actividade, que tanto rendimento trouxe ao Vale de Alvoco, e ao aproveitamento do estrume para adubar as terras. No século XX, ainda era este o quadro da agricultura serrana. Muitas foram as viagens de Lisboa para o Aguincho em que eu e o meu pai levávamos carregos de estrume retirado das capoeiras das galinhas e dos coelhos para adubar a terra escura dos socalcos que iriam receber as batatas.

_MG_8598.JPG

A farinha de abóbora é um prato que se cozinhava em casa dos meus avós paternos que viviam no Aguincho. Era feito essencialmente para comer ao pequeno-almoço, mas também era servido como sobremesa. Para o efeito, adicionava-se mel, pois não havia açúcar à disposição.

_MG_8610.JPG

Os naperons são um produto artesanal da Botão de Pérola.

 

FARINHA DE ABÓBORA DO AGUINCHO

(Receita da minha mãe)

 

INGREDIENTES:

400 g de abóbora cozida e escorrida

3 c. de sopa de farinha de milho

3 c. de sopa de mel de rosmaninho ou de açúcar amarelo

150 ml de leite

1 gema de ovo

1 pau de canela

1 raspa de limão

 

PREPARAÇÃO:

Desfazer a abóbora, já cozida num pouco de água temperada com sal e escorrida, com a ajuda de um garfo (para uma apresentação mais rústica) ou com a ajuda da varinha mágica.

 

Num tacho, colocar o leite e juntar a gema de ovo. Mexer bem até esta se desfazer. Adicionar o açúcar e a farinha peneirada. Mexer bem com a ajuda de uma vara de arames, para não criar grumos.

 

De seguida, juntar a abóbora, o pau de canela e a raspa de limão. Colocar o tacho  ao lume. Envolver bem o preparado. Ir mexendo e deixar ferver até que ganhe a consistência desejada (tipo leite-creme).

 

Colocar em taças e decorar a gosto com canela ou frutas da época.

 

 

A receita original não leva canela nem limão. Esta é a versão da minha mãe para a enriquecer um pouco mais.

 

Bom apetite!

Que bos faga bun purbeito!

 

 

Nota: Os naperons são um produto artesanal da Botão de Pérola.

Autoria e outros dados (tags, etc)

«Todas a vezes que a visitei (a Beira), olhei e perscrutei, a ver se conseguia entendê-la, andei sempre à roda, à roda, e sempre à roda da mesma força polarizadora: - a Estrela. (...) Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Há energia eléctrica na Beira? Gera-se na Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha nas suas raízes no seu largo materno seio. Ela comanda, bafeja, castiga e redime. Gelada e carrancuda, cresta o que nasce sem a sua bênção; quente e desanuviada, a vida à sua volta abrolha e floresce. O Marão separa dois mundos - o minhoto e o transmontano. O Caldeirão, no pólo oposto de Portugal, imita-o como pode. Mas a Estrela não divide: concentra.»

 

Miguel Torga

 

Fotografias e montagem de Ricardo Barata - Aguincho

 

No Aguincho, aldeia protegida pelo Vale de Alvoco da Serra, correm as águas que nascem na Lagoa Comprida e se lançam a desenhar carreiros amparados por rebolas e ervas que se vestem de cor para a saudar à sua passagem. No moinho, os rodízios lançam-se na lenta roda que transforma os cereais em pão, ao sabor da sua corrente. O forno espera, quente, os pães e os esquecidos que encherão as arcas. Os pássaros, enamoram-se da corrente cristalina que revela peixes de tamanhos vários a passear despreocupadamente. O sol, acaricia esta água e a terra que a envolve numa bênção que a Serra reconhece. As gentes, agradecem, humildes, esta comunhão com a natureza.

 

Boas descobertas!

Autoria e outros dados (tags, etc)

IMG_8065.JPG

Poço da Vagem - Pormenor do moinho comunitário

 

Situada em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, bem perto da Torre (em linha recta), na margem direita da Ribeira de Alvoco, fica a aldeia de Aguincho. É a mais distante e menos populosa aldeia da freguesia de Alvoco da Serra, de que dista 8 km, e a que permaneceu quase inacessível por carro até há poucos anos. Esta aldeia, que mais parece um lugar, faz parte da minha história.

IMG_8154.JPG

Vista da estrada nacional sobre Alvoco da Serra com a Serra da Estrela a amparar a vila

IMG_8213.JPG

Pormenor do restaurante da estânciade neve da Serra da Estrela

IMG_8218.JPG

Pormenor do muro junto ao restaurante da estância de neve da Serra da Estrela

 

Estima-se que a origem do povoamento de Alvoco da Serra poderá recuar até à Idade do Bronze, devido à descoberta de pinturas rupestres nas encostas das ribeiras de Alvôco e do Piódão. Quanto ao Aguincho, sabe-se, desde 1884, que os Romanos passaram por ali, porque se descobriu no sítio da Barroca do Galego um tesouro de denários republicanos.

IMG_8105.JPG

Pormenor do caminho no Aguincho

IMG_8031.JPG

IMG_8077.JPG

Desconhece-se a sua toponímia, mas sabe-se que até ao século XVIII apenas havia referência nos registos de baptizados ao Pavão, lugar que fica nas imediações do Aguincho. Todavia, a capela, inicialmente dedicada a S. Domingos - talvez pelo facto de o Barão de S. Domingos e Alvito ali ter construído uma quinta de recreio repleta de estátuas de bronze que a população carinhosamente chamava de «santos negros» –, foi construída em 1726, tendo sido reconstruída já em pleno século XX. Hoje, é dedicada à Nossa Senhora da Agonia, devido, dizem, a promessa feita por Mário Luís Freire à Santa. O aguinchense prometera fazer uma festa em honra da Nossa Senhora da Agonia se conseguisse ficar curado de mal que lhe havia chegado. Tendo recuperado, tratou de cumprir o prometido. Em consequência, a festa da aldeia celebrada no primeiro Domingo de Setembro de cada ano é agora dedicada à referida Santa.

IMG_8059.JPG

Poço da Vagem - Aguincho

 

O Aguincho pouco mais tem para oferecer aos seus visitantes do que a sua fabulosa paisagem, marcada por socalcos feitos pelo homem para tornar a terra mais produtiva; a calma da água a correr na ribeira; o canto dos pássaros; a monumentalidade da água a cair na «Broca»; banhos refrescantes em águas límpidas e tranquilas; as trutas que habitam o viveiro e a serenidade regeneradora de dias tranquilos. Em rigor, o Aguincho oferece saúde e bem-estar.

IMG_8124.JPG

IMG_8134.JPG

 Pormenor de casa

IMG_8018.JPG

IMG_8076.JPG

IMG_8116.JPG

Capela da Nossa Senhora da Agonia / Caminho para o Poço da Ponte / Diospireiro - Aguincho

 

Quem quiser passar uns dias nesta pérola da Serra da Estrela pode ficar no «Refúgio da Estrela» ou na «Casa do Galvão». Ambos oferecem a garantia de dias tranquilos marcados pela rusticidade que se deseja do lugar.

IMG_8008.JPG

Pormenores do Refúgio da Estrela - Turismo Rural - Aguincho

IMG_8004.JPG

IMG_8012.JPG

Fonte junto ao Refúgio da Estrela a da Associação do Aguincho

 

Dali, pode partir à aventura e optar por vários percursos pedestres ou utilizando o carro. No Inverno, o ponto alto é subir à Serra da Estrela para sentir a neve. Passando por Loriga, lugar também ele de visita obrigatória com a sua história romana, encontra, a cerca de 30 minutos, a estância de neve. No regresso, pode passar pelo Museu do Pão, em Seia, e pelo Vale do Rossim. Seguindo noutra direcção, poderá também passar por Vide, e subir até à aldeia mais característica de Portugal: o Piódão. Aconselha-se ainda uma visita à aldeia de Cabeça, que este ano foi uma das aldeias Natal, e à sede da freguesia, Alvoco da Serra. O percurso mais simples e o favorito de muitos como eu, é ir a pé até à aldeia de Frádigas, cuja história está também de alguma forma ligada ao Aguincho, e tomar um café na esplanada situada na varanda da Associação Recreativa ou simplesmente deixar-se ficar pelo largo a conversar com os locais ou a ler um livro.

IMG_8090.JPG

Cachorro Serra da Estrela - Aguincho

IMG_8082.JPG

Pormenor da Ribeira de Alvoco junto ao Poço da Ponte - Aguincho

IMG_8133.JPG

IMG_8128.JPG

Fonte da Mina - Aguincho

 

No que concerne à gastronomia, existem dois restaurantes situados a poucos quilómetros da aldeia. O restaurante «Pedras Lavradas», situado, como o próprio nome indica nas Pedras Lavradas, que fica entre Loriga e Unhais da Serra, oferece uma vista ampla sobre o vale e a Serra, bem como pratos tradicionais portugueses a preços muito acessíveis. Convém reservar, pois ao fim-de-semana costuma estar cheio. Na Barriosa, encontra-se o «Guarda-Rios», com a sua particular localização. Situado junto à ribeira e inserido na rocha, este restaurante oferece uma experiência única, porque pode tomar o seu café, no Verão, enquanto desfruta da água da ribeira. A cozinha é igualmente tradicional mas com uma apresentação mais cuidada. Um e outro merecem uma visita.

IMG_8036.JPG

Vista do caminho para o Poço da Vagem - Aguincho

IMG_8114.JPG

Vista da varanda da Capela da Nossa Senhora da Agonia - Aguincho

IMG_8146.JPG

Serra da Estrela vista da estrada do Aguincho em direcção a Vasco Esteves de Baixo 

 

Boas descobertas!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


A simplicidade de um prato doce

por Paula, em 08.01.15

IMG_8259.JPG

É das simples conjugações que nascem sérios momentos de deleite. Seja em que campo for. A afirmação é categórica. A vida tem-me mostrado que desviar caminho da simplicidade traz-me inquietação, infelicidade e desconforto. Acima de tudo, desconforto. Sinto-me estranha fora dela. Por isso, tenho tentado agarrar-me a esta forma de viver com força, para não me perder.

IMG_8258.JPG

Quando vou à terra, situada num dos mais bonitos vales da Serra da Estrela, é que me dou conta do desconforto do resto dos dias. Ali, respiro outro ar, consigo pensar e olhar com olhos de ver o que me rodeia.

 

Em Dezembro, quando caiu o nevão deste Inverno, tive oportunidade de repor energias nas faldas da Serra da Estrela. Um bálsamo para os sentidos. Mesmo com frio, sentia uma quase obrigação de abrir a janela do carro para respirar o ar característico daquela terra.

IMG_8243.JPG 

Temos, nestas deslocações, um hábito tão impregnado que mais parece obrigação de romaria. O almoço de despedida, normalmente, é feito no Restaurante das Pedras Lavradas. O pedido é quase sempre o mesmo: cozido à portuguesa. Quanto à sobremesa, essa faz jus à simplicidade que é a identidade das gentes e daquela região. Feita com queijo e doce, nada mais se quer no prato, que o deleite é coisa que se sente logo na primeira garfada.

IMG_8223.JPG

O requeijão com doce de abóbora é, pois, a sobremesa perfeita. Com apenas dois ingredientes, se oferece felicidade num prato. Para o efeito, basta fatiar um requeijão, dispô-lo num prato e cobrir com doce de abóbora a gosto. Tão simples.

 

IMG_8241.JPG

 Bom apetite!

Autoria e outros dados (tags, etc)


Sopa Com Sabor a Saudade

por Paula, em 15.02.12

Vale de Alvôco da Serra

Vale de Alvôco da Serra, Parque Natural da Serra da Estrela

 

Canta a Mariza que as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade. Há gente que fica na história, na história da gente e outras de quem nem o nome lembramos ouvir. São emoções que dão vida à saudade que trago (...). Há dias que marcam a alma e a vida da gente.

 

A tia Palmira, mulher simples, criada e vivida nas faldas da Serra da Estrela, era uma figura singular. Os seus modos alegres cativavam os familiares e amigos que muitas vezes se desviavam do seu caminho para a ir visitar. À chegada, encontrávamo-la sempre descalça, fosse verão ou inverno. Recebia-nos sempre de sorriso largo e já desdentado, que o dinheiro não chegava para as consultas do dentista, e de brilho intenso no olhar. A alegria de nos ver, aos miúdos da cidade, ficava estampada naquele rosto curtido pelo sol e pelo frio dos dias de lavoura.

 

- Entrai, pois então! Entrai e sentai-vos à mesa. Comei uma malga de sopa que está a acabar de fazer, pois sim! – dizia-nos de sorriso largo ao mesmo tempo que escancarava a porta da entrada.

- Entrai e aquecei-vos! Andai lá e comei qualquer coisa! – insistia. E logo ordenava ao meu tio que fosse buscar pão fresco à arca de madeira e vinho para ajudar a empurrar o pão e o queijo. Tudo feito por aquelas mãos.

 

Lareirasopa da tia Palmirasopa da tia Palmira

 

O cheiro a lenha queimada sentia-se antes de chegarmos à porta da casa feita de pedra por fora e de madeira por dentro. Um luxo face à casa da quinta que amanhava. Subíamos as escadas, sentindo a madeira a ranger sob os nossos pés, para logo avistarmos a panela preta de ferro fundido, pesada, presa nas cadeias da lareira, a ser acariciada pela chama do lume. No seu interior, fervilhava uma sopa de feijão encarnado, couve portuguesa e esparguete. Para acompanhar, havia fatias de pão de milho (broa) ou pão de centeio com queijo da serra caseiro.

  

Na família, a opinião sempre foi unânime: aquela era a melhor sopa que já havíamos comido. E era sempre por ambas que voltávamos. Para o fim, já não havia panela ao lume todos os dias… e eu ficava a olhar para a lareira apagada, sem vida, sentindo o desconforto de toda uma vida dura que agora dava sinais de estar a terminar.

 

A tia Palmira já faleceu, mas esta imagem dela, descalça e de sorriso largo e franco, há de acompanhar-me sempre, bem como o sabor daquela sopa.

 

As coisas mudam. Há vidas que nos tocam e que se apagam, mas que jamais nos saem da memória emotiva, fotográfica, olfativa e gustativa. Fica a saudade, mesmo que dela não falemos. Tentamos resgatar sabores e continuar velhos legados, mas aquele sabor não voltamos a provar e as emoções já não serão as mesmas. Perde-se o encanto.

  

lareira

 

Ingredientes:

300g de feijão “pantufas” (feijão encarnado de vagem arredondada)

4 batatas

1 cebola

1 couve portuguesa

200 g de esparguete

Sal q.b.

Azeite q.b.

Àgua q.b.

 

Preparação:

Numa panela de ferro fundido, coloque o feijão, duas batatas e a cebola. Cubra com água e tempere com sal e azeite *, embora, em rigor este deva ser colocado apenas no fim, já que é uma gordura que não deve ser cozinhada.

 

Depois de os legumes estarem cozidos, reduza-os a puré. A tia Palmira utilizava uma grande colher de pau e um garfo para fazer o puré o que acabava por deixar alguns feijões inteiros. Como utilizei a trituradora, deixei uma concha de sopa de feijões inteiros.

 

Junte a couve cortada de modo mais grosseiro do que para o caldo verde, duas batatas cortadas em quartos *, adicione mais água quente, a gosto, consoante queira a consistência do caldo e deite mais um pouco de azeite.

 

Quando a couve estiver praticamente cozida, junte o esparguete e retifique os temperos, se necessário.

 

Sirva bem quente numa malga e acompanhe com uma fatia de broa ou de pão de centeio com queijo.

 

sopa da tia PalmiraSopa da tia Palmira

 

O segredo desta sopa não estava apenas nas mãos de quem a fazia, no lume da lareira, nos alimentos que provinham da terra que aquelas mãos cuidavam, da água que era retirada da fonte cuja origem está no centro da Serra da Estrela e da geada que amaciava as folhas das couves, mas, sobretudo, no tempo de cozedura dos alimentos, aliado à temperatura que não execedia os 70.º ou 80.º. Eram estes factores que definiam o maravilhoso sabor desta sopa porque respeitavam as propriedades dos alimentos, deixando-os revelarem-se. Na província (e naquela altura) o tempo é aliado das pessoas e da comida. Poque ele existe, tudo se torna mais autêntico.

 

À tia Palmira que nos recebia sempre com um prato fumegante, tão simples e tão reconfortante quanto o seu sorriso.

 

Bom apetite!

{#emotions_dlg.beja}

 

* Nota ao texto: Na fotografia não aparecem as batatas cortadas em quartos porque me esqueci. Acabei por confirmar com a minha prima Lurdes alguns detalhes e acolhi ainda as sugestões de um amigo (A.) relativamente ao azeite, ao tempo e à temperatura que, de facto, marcam a diferença. Bem-haja a ambos! :D

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2012
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2011
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2010
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2009
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D