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L mirandés

por Paula, em 08.02.15

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“Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas apenas nós nos apercebemos; há sons que nos envolvem como uma onda de calor, mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter; há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que mais ninguém sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram durante tanto tempo connosco, que se tornaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.”

Amadeu Ferreira, in Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino

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Miranda do Douro lutou sempre pela sua identidade, e o mesmo se pode dizer de Amadeu Ferreira. Natural de Sendim, este mirandês tem uma história singular ligada à sua língua materna.

 

Acérrimo e dedicado impulsionador e divulgador da língua mirandesa, foi através dele que esta ganhou a dignidade que lhe era devida. Sem o seu empenho, a língua mirandesa seria mais um pilar da cultura portuguesa que se perderia para sempre. Sobre ela, escreveu um Manifesto em Modo de Hino, publicado pela Âncora Editora. Este Manifesto foi escrito em português pelo Amadeu Ferreira, e em mirandês pelo Fracisco Niebro, um dos seus pseudónimos. O mirandês está-lhe entranhado na alma. Define-o. Alimenta-o.

 

Começou a escrever aos 12 anos. Nessa altura, escreveu poesia, num caderninho quadriculado, sobre o Pinóquio. Mas roubaram-lho. E ele chorou a perda deste trabalho que seria o primeiro de muitos.

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Muitos anos mais tarde, escreveu, num mês, o romance Tempo de Fogo, cuja acção decorre no tempo da Inquisição e conta história de um frade homossexual. (Âncora Editora, 2011).

 

Traduziu para o mirandês várias obras importantes, como os Lusíadas, de Camões; a Mensagem, de Fernando Pessoa; os Quatro Evangelhos; e, a pedido da editora ASA, dois livros: Astérix L Goulés e Astérix L Galaton (uma edição rara com os desenhos originais de Albert Uderzo).

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Mas se sobressai como tradutor e romancista, é como poeta que se pode definir o Amadeu Ferreira. É a poesia que o solta, que o faz “encontrar-se consigo mesmo”. “Leva-me para lá da vida”, diz.

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Nesta vertente literária, escreveu sob vários pseudónimos. Os mais conhecidos são Fracisco Niebro e Fonso Roixo. Do primeiro, deu-nos a conhecer: Cebadeiros (2000) - com os poemas deste livro fez, juntamente com a pintora Balbina Mendes, uma exposição composta por pinturas e poemas, aquando a comemoração do Ano Europeu das Línguas Minoritárias, que percorreu o País -; Las Cuntas de Tiu Jouquin (2001); Cula Torna Ampuosta Quienquiera Ara (2004); Pul Alrobés de ls Calhos (2006); L Mais Alto Cantar de Salomon (2012). L Ancanto de las Arribas de L Douro (2003) – uma edição feita com lindíssimas aguarelas pintadas por Manuol Bandarra, seu irmão. Publicou ainda o livro Ars Vivendi, Ars Moriendi, poesia-bilingue em mirandês e português, Âncora Editora, 2012.

 

Já sob a pena de Fonso Roixo, mostrou-nos L Purmeiro Libro de Bersos (2009), a que se seguiu mais um.

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A banda desenhada também não lhe passou ao lado. Escreveu textos e histórias infantis: L filico, il Nobielho (2006), onde escreve que “hai cousas que nun podemos ber culs uolhos, mas podemos coincer cun outros sentidos”; L segredo de Peinha Campana (2008), conta-nos a história de Sabel, e de um rapazinho que vive numa rocha do Planalto Mirandês, que vai minguando à medida que a qualidade do ar se deteriora. Ambos com ilustrações de uma jovem, Sara Cangueiro.

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Mirandés – Stória dua Lhéngua i dun Pobo, é, como o próprio nome indica, a história da língua mirandesa em banda desenhada. Com desenhos de José Ruy, este livro viu a luz em 2009, ano em que se republicaria também em banda desenhada, e em mirandês, o trabalho daquele autor de banda desenhada, com tradução de Fracisco Niebro, Ls Lusíadas.

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Trabalhou ainda com aquele mestre da banda desenhada portuguesa em La Magie de las Letras, um livro sobre João de Deus e o seu revolucionário método de ensino, traduzindo mais uma vez a obra para mirandês.

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Depois, em 2014, juntou o seu nome ao de Luís Borges, um fotógrafo das terras nortenhas. Este lia as paisagens com a sua máquina e Amadeu Ferreira dava-lhe as palavras. Umas vezes em português, outras em mirandês. Daqui resultou um trabalho lindíssimo, de uma grande sensibilidade e com a incomparável qualidade da escrita de Amadeu Ferreira. O projecto nasceu no Facebook, mas depressa passou para as páginas de um livro.

 

Colaborou ainda em A Terra de Duas Línguas - Antologia de Autores Transmontanos, com Ernesto Rodrigues, e em Ditos Burriquitos, um livro de adágios, rifãos, provérbios, historietas, etc., recolhidos por Paulo Gaspar Ferreira, sendo que a principal colaboração não chegou a ser impressa em papel: trata-se de um dicionário de mirandês organizado, em 2009, por Amadeu Ferreira e José Pedro Cardona. Um símbolo e uma ferramenta muito útil para quem queira aprender a língua mirandesa.

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Recentemente, deu a conhecer um conjunto de provérbios (ditos) que foi recolhendo ao longo de vários anos. Este trabalho, culminou num pequeno livro chamado Ditos Dezideiros, (Âncora Editora, 2014) que é a mais completa recolha de ditos mirandeses. Os provérbios são apresentados por ordem alfabética e respeitam as regras da Convenção Ortográfica de Língua Mirandesa. Desta forma, ficam eternizados, não correndo o risco de desaparecerem.

 

Desenvolveu ainda blogues em mirandês como o Ls Mielgos, o Froles Mirandesas, o Cumo quen bai de Camino, entre muitos outros, bem como o ensino desta língua em horário pós-laboral.

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Por outro lado, também tem apoiado a publicação de livros mirandeses, como Dança da Bicha, um livro sobre uma dança associada ao sagrado, bem como um Roteiro Solsticial do Planalto Mirandês, onde se divulgam as tradições daquela região nos solstícios de Verão de Inverno.

 

Tierra Alantre, o último trabalho dos Ronda dos Quatro Caminhos, é uma expressão mirandesa para "caminho em frente". Este trabalho, conta com versos em mirandês da sua autoria. No dia 22 de maio de 2014, este grupo deu um concerto de lançamento do referido trabalho, no Teatro Nacional de S. Carlos, em que homenageou o poeta mirandês. Foi um espectáculo comovente.

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Mas o Amadeu Ferreira não é só o poeta e escritor mirandês que se atreveu a desafiar as probabilidades de sucesso na vida e sair de Miranda do Douro, descendo até Lisboa para se tornar um jurista respeitado. É muito mais do que isso. A sua dimensão enquanto ser humano está plasmada no novo trabalho da autora Teresa Martins Marques, O Fio das Lembranças – Uma Biografia de Amadeu Ferreira, dado à estampa novamente pela Âncora Editora.

 

A obra está dividida em duas partes. A primeira, é a biografia de Amadeu Ferreira, escrita pela pena de Teresa Martins Marques. A segunda, é constituída por testemunhos heterogéneos de pessoas tão diversas nas suas vidas e ofícios que, de uma forma ou doutra, sentiram a passagem de Amadeu Ferreira pelas suas vidas.

 

O lançamento está marcado para o próximo dia 5 de Março, na Universidade Nova de Lisboa, em Campolide, pelas 18H00. A apresentação está a cargo de Luís Vaz das Neves, Presidente do Tribunal da Relação de Lisboa.

 

Simultaneamente, será lançado o novo livro de Amadeu Ferreira, Velhice, que nos conta a história de um velho de 80 anos que vive nos anos 50 do século XX e que escreve sobre o que vai vendo. Transpõe para o papel as suas impressões sobre a sua aldeia, as pessoas e o que vai sentindo.

Retrato de Manuol Bandarra.jpg Aguarela de Manuel Bandarra - retirada do blogue do pintor, Cachicos

 

“E porque acredito que a rota escolhida pelo nosso Amigo Amadeu Ferreira é a mais maravilhosa aventura que a Humanidade pode viver, convido todos a entrar e a viajar neste sonho de Luz e de Paz!”

Luís Vaz das Neves, in O Fio das Lembranças – Uma Biografia de Amadeu Ferreira

 

Estão todos convidados!

Até lá! 

 

Buonas scubiertas!

 

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