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Renascer com chocolate e pimenta

por Paula, em 08.12.11

 

Clara acordou devagarinho. O seu corpo estava cansado e dorido. Sentou-se na cama e sentiu a pele do rosto seca e repuxada. O gosto salgado nos seus lábios lembrou-a imediatamente de que a noite anterior tinha sido marcada, mais uma vez, por lágrimas. Chorara até adormecer. Há algum tempo que era assim todas as noites. Levantou-se e arrastou-se até à cozinha. Colocou a cafeteira ao lume na esperança de sentir algum conforto numa chávena de café bem quente. Nunca era apenas uma. Era quase um ritual. Bebia a primeira chávena para acordar e a segunda para saborear o café. Enquanto aguardava a música do café a ferver na cafeteira, percorreu o pequeno espaço que era a sua casa e levantou as persianas. O dia estava soalheiro e frio, como ditava o mês de Dezembro. Um sorriso amargo marcou-lhe os lábios finos e rosados. Entretanto, o som do café a borbulhar fê-la voltar à cozinha.

 

Serviu-se da primeira chávena e sentou-se à mesa para escrever aquela que seria a sua primeira e última carta a Luís. Para ela, uma despedida deveria ser feita daquela forma. À antiga, como impunha o seu lado romântico. Escreveu o que lhe ia no coração magoado sem se preocupar com o facto de se expor. Passou para o papel todas as suas feridas e todo o seu sofrimento de anos. Luís nunca soubera apreciar o seu espírito, nem a valorizava. Em relação a Clara, era inferior em inteligência e sensibilidade, mas não o reconhecia. A decisão estava, portanto, tomada. Aquela relação sufocante e tóxica terminava ali. Iria começar uma nova vida. Serviu-se da segunda chávena de café e constatou que já estava frio. Como não apreciava café aquecido, tornou a encher a cafeteira com água e café. De novo a musicalidade daquele líquido escuro a brotar e a espalhar o seu aroma revigorante pela cozinha. Confortada com a segunda chávena, decidiu tomar um banho e fazer algo que marcasse este novo início de vida. As lágrimas terminavam para dar lugar à alegria de viver. Seria livre e viveria a vida com prazer, dedicando-se a si e ao que mais gostava.

 

A cozinha era a sua paixão. Para Clara, esta era o verdadeiro baú dos afectos. Achava que quem cozinhasse bem, tinha que ser boa pessoa porque um prato reflecte a alma do cozinheiro. Espreitou a despensa e verificou que tinha várias barras de chocolate. Há muito que desejava fazer uns bombons de chocolate e pimenta. Ali estava uma receita ousada para um momento marcante. Colocou o seu avental favorito e começou a preparar o chocolate para fazer bombons de mascarpone e pimenta rosa.

 

 

Bombons de mascarpone e pimenta rosa

 

Partiu 100 g de chocolate preto e levou-o a derreter em banho-maria juntamente com 10 grãos de pimenta rosa esmagados no almofariz. O perfume da pimenta fez-se notar, conferindo à tarefa mais ânimo. Depois de o chocolate estar derretido, pincelou umas formas de bombons, deixando uma boa camada para formar o invólucro do recheio. Deixou arrefecer um pouco e colocou-os no frigorífico.

 

Preparou, então, um recheio simples com 250 g de mascarpone,  1 colher de chá de essência de baunilha e 200 g de chocolate de leite derretido em banho-maria. Juntou tudo numa tigela e avivou esta mistura com mais uns grãos de pimenta rosa moída.

 

Depois, com uma colher preencheu o interior dos bombons e levou tudo novamente ao frigorífico para solidificar. Derreteu mais 100 g de chocolate negro, juntamente com uma colher de sopa de natas, para forrar os bombons e levou tudo ao frigorífico por mais uma hora. Nessa altura, retirou-os e bateu com a placa na mesa para os soltar. Finalmente, colocou o resto do creme num saco de pasteleiro e fez uma pequena bola no topo de cada bombom. Finalizou com um grão de pimenta para dar cor. O resultado agradou-lhe bastante.

 

O telefone tocou. Do outro lado, Luís desculpava-se por não lhe ter telefonado antes, como tantas outras vezes no passado, e por ter faltado ao jantar. Clara não respondeu. Desligou o telefone e inibiu o número.

 

Mordeu um bombom e aquele sabor doce e ligeiramente picante invadiram os seus sentidos, deixando-a leve e confiante. O dia seguinte seria melhor e o que se seguiria seria ainda melhor, pensou decidida. Um sorriso largo iluminou-lhe o rosto. Na sua cabeça ouviu a voz de Catherine Deneuve a cantar "C'est beau la vie", como no filme "Potiche", enquanto alcançava mais um bombom.

 

 

Com esta estória participo no passatempo Chocolate e Picante: Um desafio de receitas com histórias dentro, promovido pelo "Gourmets Amadores" e pela editora "Casa das Letras" do grupo Leya. A receita foi inspirada no livro "Chocolate", da editora Parragon.

 

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4 comentários

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De Suzana a 08.12.2011 às 18:50

Paula,

O chocolate tem esta coisa de proporcionar conforto quando mais precisamos e marcar o tom certo para a mudança. Porque afinal de contas, "c'est beau la vie"!

Muito obrigada pela participação.

Um beijo*

PS - os bonbons são lindos para a quadra natalícia. Desconfio que fazem o presente perfeito. ;)
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De Paula a 08.12.2011 às 23:23

Olá, Suzana!

Foi um prazer participar neste passatempo. Achei muito interessante termos de conjugar a história com a receita.

Mais oui, "c'est beau la vie!". :D

É verdade. Farão parte de alguns cabazes de Natal mais especiais. ;-)

Um beijinho.
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De Susana Gomes (Gasparzinha) a 09.12.2011 às 10:34

Paula, gostei muito do teu txto e dos bombons apimentados. O chocolate acompanha-nos nos momentos forte sda vida! :)
Bjs
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De Paula a 09.12.2011 às 10:39

Olá, Susana! :D

Obrigada! É verdade, o chocolate tem essa característica de nos renovar e de nos aconchegar nos momentos mais difícies da vida, mas, também, de nos ajudar a celebrar o que de melhor a vida nos oferece. :D

Um beijinho,

Paula

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