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 Marmelada com queijo de cabra

 

Acredito que a paixão que temos pela comida é equivalente àquela que temos pela vida. Faço muitas vezes esta analogia. Uma e outra revelam-nos na exata medida da paixão que nutrimos por aquilo que nos rodeia e por nós, enquanto indivíduos, seres amantes, amados e em perspetiva de amar. Ter paixão pela comida é estar apaixonado pela vida. É amor em forma de brócolos, maçãs, peixe, sopa, bolos, doces e tudo o que quisermos.

 

Um destes fins de semana, troquei, mais uma vez, uma subida à Serra da Estrela para ver a neve por uma tarde na cozinha. Celebrei, assim, na companhia da minha mãe, a minha paixão pela vida. Na cozinha, entregámo-nos à preparação deste doce tão apreciado cá em casa. A massa estava congelada desde outubro. A minha mãe não gasta a polpa dos marmelos de uma vez só porque nós gostamos deste doce acabado de fazer, ou seja, antes de ganhar a consistência da marmelada. Ficou uma delícia. Não é verdade que uma refeição feita com carinho sai sempre melhor?

 

Marmelada com queijo de cabraMarmelada

MarmeladaMarmelada com queijo de cabra

 

Ingredientes:

1 kg de marmelos cozidos (polpa)

1 kg de açúcar

2 tiras de casca de limão

1 pau de canela

 

Preparação:

1. Lave os marmelos muito bem e retire a base e o cimo dos marmelos.

2. Coloque os marmelos inteiros na panela de pressão e deixe cozer durante 20-30 minutos.

3. Retire os marmelos e escoe a água para um recipiente.

4. Deixe arrefecer os marmelos e depois retire a casca e o caroço.

5. Corte os marmelos aos pedaços e triture-os no passe-vite.

6. Coloque a massa resultante num tacho e leve ao lume com um pouco de açúcar, a casca de limão e o pau de canela, mexendo sempre. Entretanto, vá juntando o restante açúcar aos poucos e deixe ferver, sem deixar de mexer, durante 30 - 40 minutos ou até fazer ponto estrada.

 

Sirva em cama de queijo de cabra, bolacha de água e sal e amêndoa laminada ou numa simples fatia de pão de centeio.

 

Da água que reservou, poderá fazer geleia. Para o efeito, junte aos poucos 2 kg de açúcar para um litro de água, uma casca de limão e um pau de canela. Mexa e deixe ferver por 1 / 1h30, até fazer ponto estrada.

 

 

Marmelada com queijo de cabra e amêndoa

 

Se na Serra a marmelada tem necessariamente um ar mais rústico, na cidade tanto assume as suas raízes como é capaz de se apresentar num registo mais requintado, principalmente se bem acompanhada. O que acham? A marmelada é rústica ou sofisticada?

 

Apaixonem-se pela comida e disfrutam a vida. Sejam felizes!

 

Bom apetite!

Bon appétit!

Jó étvágyat!

 

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Budapeste: Ponte Francisco José ou Ponte da Liberdade

Budapeste: Ponte Francisco José ou Ponte da Liberdade

 

A Etelka

Viste, meu anjo, o Danúbio,

e uma ilha no centro?

Assim guardo a tua imagem

no coração, aqui dentro.

 

A verde fronda da ilha

nas águas mergulha; ah, se,

no meu coração, assim

verde esperança mergulhasses!

 

Petöfi Sándor

Buda, Dezembro de 1844

 

Budapeste: estátua do poeta Petöfi Sándor

Fonte: "Antologia da Poesia Húngara"

Seleção e tradução de Ernesto Rodrigues

Âncora Editora, 2002

 

Budapeste... e a comida húngara foram uma revelação para mim. De lá e daqui, parti à descoberta de uma realidade tão nova quanto desconhecida. A gastronomia, a música, a poesia, os romances e a língua têm tido, desde então, e graças a amigos que me vão presenteando com livros, uma presença assídua nos meus dias.

 

Este é um prato que provei durante a minha viagem e que reproduzi, a partir do livro de György Hargitai, Hungarian Cuisine, quando regressei a Lisboa, em que a carne de porco é o ingrediente principal. Tal como os portugueses, os húngaros também têm o "culto" desta carne. Na cozinha magiar encontramos sem dificuldade pratos só de enchidos que lembram o nosso cozido à portuguesa, como o Disznótoros que significa jantar do dia da matança.

 

Couve recheada à Bácska

Gastronomia húngara - stuffed cabbageGastronomia húngara - stuffed cabbage

 

Ingredientes:

1 couve lombarda pequena

 

Para o recheio:

400 g de carne de porco picada (da pá)

1 ovo

5 colheres de sopa de arroz cozido

1/4 de colher de chá de pimenta preta moída

1/2 colher de chá de paprika

1 dente de alho esmagado

 

Para a couve restante ou base:

85 g de toucinho entremeado

1 cebola grande

1 colher de chá de paprika

1 pimento verde húngaro

1 tomate (polpa)

1 colher de chá de sal

2 dentes de alho

1/2 colher de chá de pimenta preta moída

1/4 de chávena de créme fraiche

1 colher de sopa de farinha (pode ser maizena)

1 ramo de endro

Segurelha (facultativo)

 

Preparação:

1. Arranje a couve, retirando o caule e lave-a. Separe 8 folhas e escalde-as por uns instantes em água a ferver. Se ainda ficarem quebradiças, repita a operação por mais 8-10 minutos, tendo o cuidado de as retirar à medida que vão ficando macias. Seque-as.

2. Corte a restante couve em pedaços grandes e reserve.

3. Misture a carne com os restantes ingredientes para o recheio e envolva nas folhas de couve. Dobre primeiro os lados para dentro e depois a ponta inferior e superior. Se necessário prenda com o palito que deverá retirar antes de servir.

4. Corte o toucinho em pequenos cubos e leve a derreter num tacho. Junte a cebola e o alho picados e deixe alourar. Adicione a paprika e logo de seguida junte três copos de água.

5. Retire as sementes do pimento e do tomate e corte-os em pequenos cubos. Junte-os ao refogado, juntamente com a couve reservada. Tempere com sal, pimenta e junte também o alho.

6. Coloque as folhas da couve recheadas no cimo e deixe ferver. Reduza o lume e deixe cozinhar meio tapado por 50 minutos aproximadamente. Vá sacudindo o tacho com cuidado para a couve cortada não pegar ao fundo do tacho e para que as folhas recheadas colocadas no topo do preparado não partam. Sempre que necessário, junte mais um pouco de água.

7. Quando estiver pronto, retire as folhas recheadas com cuidado.

8. Misture a farinha e o créme fraiche até obter um creme fofo. Junte ao preparado anterior e deixe cozinhar por 2-3 minutos.

9. Salpique com o endro, podendo ainda adicionar segurelha para um sabor mais apurado.

10. Guarneça com salsicha de churrasco ou para cachorro quente, uns pés de endro e mais um puco de créme fraiche.

 

Gastronomia húngara - Stuffed Cabbage

 

Este prato fica delicioso. E no inverno transporta com ele o conforto. Gosto desta palavra. Talvez seja por isso que a utilizo tantas vezes para adjetivar alguns pratos que vou confecionando.

 

Apesar de não ser um prato original, é com ele com que participo no "1.º Desafio Culinário dos Blogs do Sapo" que está a decorrer no Bairro.

 

Bom apetite!

Bon appétit!

Jó étvágyat!

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Sopa Com Sabor a Saudade

por Paula, em 15.02.12

Vale de Alvôco da Serra

Vale de Alvôco da Serra, Parque Natural da Serra da Estrela

 

Canta a Mariza que as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade. Há gente que fica na história, na história da gente e outras de quem nem o nome lembramos ouvir. São emoções que dão vida à saudade que trago (...). Há dias que marcam a alma e a vida da gente.

 

A tia Palmira, mulher simples, criada e vivida nas faldas da Serra da Estrela, era uma figura singular. Os seus modos alegres cativavam os familiares e amigos que muitas vezes se desviavam do seu caminho para a ir visitar. À chegada, encontrávamo-la sempre descalça, fosse verão ou inverno. Recebia-nos sempre de sorriso largo e já desdentado, que o dinheiro não chegava para as consultas do dentista, e de brilho intenso no olhar. A alegria de nos ver, aos miúdos da cidade, ficava estampada naquele rosto curtido pelo sol e pelo frio dos dias de lavoura.

 

- Entrai, pois então! Entrai e sentai-vos à mesa. Comei uma malga de sopa que está a acabar de fazer, pois sim! – dizia-nos de sorriso largo ao mesmo tempo que escancarava a porta da entrada.

- Entrai e aquecei-vos! Andai lá e comei qualquer coisa! – insistia. E logo ordenava ao meu tio que fosse buscar pão fresco à arca de madeira e vinho para ajudar a empurrar o pão e o queijo. Tudo feito por aquelas mãos.

 

Lareirasopa da tia Palmirasopa da tia Palmira

 

O cheiro a lenha queimada sentia-se antes de chegarmos à porta da casa feita de pedra por fora e de madeira por dentro. Um luxo face à casa da quinta que amanhava. Subíamos as escadas, sentindo a madeira a ranger sob os nossos pés, para logo avistarmos a panela preta de ferro fundido, pesada, presa nas cadeias da lareira, a ser acariciada pela chama do lume. No seu interior, fervilhava uma sopa de feijão encarnado, couve portuguesa e esparguete. Para acompanhar, havia fatias de pão de milho (broa) ou pão de centeio com queijo da serra caseiro.

  

Na família, a opinião sempre foi unânime: aquela era a melhor sopa que já havíamos comido. E era sempre por ambas que voltávamos. Para o fim, já não havia panela ao lume todos os dias… e eu ficava a olhar para a lareira apagada, sem vida, sentindo o desconforto de toda uma vida dura que agora dava sinais de estar a terminar.

 

A tia Palmira já faleceu, mas esta imagem dela, descalça e de sorriso largo e franco, há de acompanhar-me sempre, bem como o sabor daquela sopa.

 

As coisas mudam. Há vidas que nos tocam e que se apagam, mas que jamais nos saem da memória emotiva, fotográfica, olfativa e gustativa. Fica a saudade, mesmo que dela não falemos. Tentamos resgatar sabores e continuar velhos legados, mas aquele sabor não voltamos a provar e as emoções já não serão as mesmas. Perde-se o encanto.

  

lareira

 

Ingredientes:

300g de feijão “pantufas” (feijão encarnado de vagem arredondada)

4 batatas

1 cebola

1 couve portuguesa

200 g de esparguete

Sal q.b.

Azeite q.b.

Àgua q.b.

 

Preparação:

Numa panela de ferro fundido, coloque o feijão, duas batatas e a cebola. Cubra com água e tempere com sal e azeite *, embora, em rigor este deva ser colocado apenas no fim, já que é uma gordura que não deve ser cozinhada.

 

Depois de os legumes estarem cozidos, reduza-os a puré. A tia Palmira utilizava uma grande colher de pau e um garfo para fazer o puré o que acabava por deixar alguns feijões inteiros. Como utilizei a trituradora, deixei uma concha de sopa de feijões inteiros.

 

Junte a couve cortada de modo mais grosseiro do que para o caldo verde, duas batatas cortadas em quartos *, adicione mais água quente, a gosto, consoante queira a consistência do caldo e deite mais um pouco de azeite.

 

Quando a couve estiver praticamente cozida, junte o esparguete e retifique os temperos, se necessário.

 

Sirva bem quente numa malga e acompanhe com uma fatia de broa ou de pão de centeio com queijo.

 

sopa da tia PalmiraSopa da tia Palmira

 

O segredo desta sopa não estava apenas nas mãos de quem a fazia, no lume da lareira, nos alimentos que provinham da terra que aquelas mãos cuidavam, da água que era retirada da fonte cuja origem está no centro da Serra da Estrela e da geada que amaciava as folhas das couves, mas, sobretudo, no tempo de cozedura dos alimentos, aliado à temperatura que não execedia os 70.º ou 80.º. Eram estes factores que definiam o maravilhoso sabor desta sopa porque respeitavam as propriedades dos alimentos, deixando-os revelarem-se. Na província (e naquela altura) o tempo é aliado das pessoas e da comida. Poque ele existe, tudo se torna mais autêntico.

 

À tia Palmira que nos recebia sempre com um prato fumegante, tão simples e tão reconfortante quanto o seu sorriso.

 

Bom apetite!

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* Nota ao texto: Na fotografia não aparecem as batatas cortadas em quartos porque me esqueci. Acabei por confirmar com a minha prima Lurdes alguns detalhes e acolhi ainda as sugestões de um amigo (A.) relativamente ao azeite, ao tempo e à temperatura que, de facto, marcam a diferença. Bem-haja a ambos! :D

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